2012 NÃO É O FILME - Neri de Paula Carneiro

20/02/2012 12:00

 

2012 não está sendo um filme, mas bem poderia ser. Afinal de contas as catástrofes continuam sendo anunciadas e os absurdos do universo da mídia e da política só fazem aumentar.

As catástrofes naturais não deixam de marcar as páginas dos noticiários. Principalmente porque muitas delas, embora naturais, carreguem manchas dos dedos humanos. São chuvas em excesso em algumas regiões e secas impensáveis em outras. Além de outros fenômenos nem sempre noticiados, mas que representam sérios distúrbios ambientais indicando que a catástrofe humana não é a da natureza, mas que vários desastres da natureza poderiam ser evitados pelos homens.

Mas o que realmente foge aos enredos dos surrados filmes de catástrofes é outra coisa. A verdadeira catástrofe é aquela produzida pela voracidade do capital. A pior delas foi ter produzido, ao longo de várias décadas, um ser repugnante que insere seus tentáculos pelas brechas da ética e mata os valores antes tão saudáveis e planta outros, nefastos. Valores que são antivalores, pois nos desumanizam supervalorizando nossa animalidade. Por isso podemos dizer que embora se façam filmes com temas éticos, a realidade da atual crise ética pode ser o prenúncio do fim de uma era: a nossa!

Veja se não são catastróficas estas situações: os bancos continuam registrando lucros inimagináveis enquanto um continente inteiro – a Europa – está ameaçado por uma desmedida crise econômica. Crise na qual alguns países já naufragaram. Exemplo típico foi a Grécia, como já havia ocorrido com Portugal... além de, por vários anos, a Itália ter estado às voltas com problemas econômicos e um primeiro ministro de comportamentos duvidosos. Ah! Não podemos nos esquecer que no outro lado do atlântico, no continente americano, no final de 2011 o gigante norteamericano também teve seu ego arranhado. Foi quando se anunciou ao mundo que, como outros tantos, este também era um país pronto para dar o calote, pois a voracidade do capital o tornara incapaz de honrar compromissos e saldar dívidas.

É catastrófico, também, ver que um dos últimos refúgios da honradez vem sendo corroído pela traça da corrupção. Muitas pessoas que acreditavam na justiça, viam no judiciário uma tábua de salvação. O judiciário era apontado como um colete salva-vidas no “mar de lama” que afoga multidões. Mas já não são poucos (ou inofensivas exceções),  os casos de magistrados corruptos. Talvez até haja mais do que os anunciados pela mídia, mas como este é um universo restrito a poucos deuses, os mortais nem tomam conhecimento de possíveis armações, vendas de sentenças, etc. O fato é que só ficamos sabendo aquilo que a mídia divulga.

Mas a mídia... O quarto podre poder. Eleva e derruba e espalha a meleca das catástrofes... não só nos noticiários mas principalmente em inúmeros programas de grande público. Num deles o casal é apanhado em cenas de sexo que só não foi explicito porque havia uma coberta sobre os corpos. E a emissora diz: “o amor é lindo!”. Num outro programa de auditório um apresentador espalhafatoso participando de um joguinho inocente, num outro programa do patrão, diz descaradamente que a audiência de seu programa se deve ao fato de explorar os “barracos” e problemas familiares que se pegam na porrada no auditório diante das câmaras. Num terceiro, que tem pânico até no nome – pânico diante das catástrofes – uma das principais atrações são os colegas de trabalho se maltratando, agredindo e ridicularizando mutuamente. O palco dos horrores é a principal atração da mídia. Quando os dramas não aparecem, espontaneamente, devem ser provocados.

E assim vivemos, neste inicio de 2012, um ano que não é o filme e nem é prenúncio de catástrofes. É mais um ano em que continuamos a assistir a decadência da civilidade.

“E nas mensagens que nos chegam sem parar, ninguém, ninguém pode notar: estão muito ocupados prá pensar...”, cantava Raul Seixas, em SOS. Cantava como a nos dizer que os comportamentos anti-humanos – que matam a ética – são aqueles que anunciam nosso fim. E o que é pior: no vazio em que nos estamos lançando não está estendida a corda que separa o homem do super homem, como anunciava Nietzsche, mas do homem que perde espaço deixando de ser humano para se tornar, quem sabe, uma utilíssima minhoca. Ou, ainda, na pior das hipóteses, diz o filósofo alemão: “percorrestes o caminho que medeia do verme ao homem, e ainda em vós resta muito do verme. Noutro tempo fostes macaco, e hoje o homem é ainda mais macaco do que todos os macacos.”

Tudo porque 2012 não é um filme, mas o anúncio de nossos pesadelos.

 


Neri de Paula Carneiro
Mestre em educação, filósofo, teólogo e historiador
Rolim de Moura - RO